Nenhum medicamento é perfeito
O mundo digital da atualidade nos permite ter acesso rápido a todo tipo de informação. Essa facilidade tem vantagens e alguns perigos, nem sempre as notícias que chegam são de uma fonte confiável e ao mesmo tempo um excesso de informações pode saturar a nossa capacidade de organizar de forma lógica esse conteúdo.
A medicina moderna evolui muito rapidamente e a possibilidade de se atualizar e acessar conhecimentos recentes é muito importante para os médicos e seus pacientes. Esta semana atendi a uma mãe que entrou em desespero ao escutar uma informação disseminada pelo atual Secretário de Saúde dos Estados Unidos.
O relatório afirmava que estava comprovado que o grande aumento do número de casos de autismo (TEA) no mundo se deve ao uso do medicamento paracetamol durante a gravidez.
A mãe, portadora de uma doença crônica teve que usar por diversas oportunidades o paracetamol durante sua gravidez e seu pequeno de 5 anos de idade tem diagnóstico de autismo. Estava se sentindo totalmente culpada, lamentava que ninguém tivesse percebido essa associação antes.
Neste caso específico foi fácil rebater essa informação, mas isso não poupou essa mãe de algumas noites sem conseguir dormir. Quando falamos dos benefícios e prejuízos dos medicamentos, todos tem esses dois lados da moeda, devemos ter muito cuidado.
A cada 2 ou 3 meses há um lançamento de um novo fármaco com uma estratégia de marketing muito bem planejada, quase sempre prometendo mais benefícios que os já confirmados e minimizando a incidência dos efeitos colaterais. Na grande maioria dos casos é somente após vários anos de uso no mercado é que realmente se conhece todo o potencial positivo e negativo de um fármaco.
Entre os casos icônicos podemos citar o surgimento do antidepressivo Prozac (Fluoxetina) no fim da década dos 80, foi chamada a “Pílula da Felicidade”, seria o fim de uma doença que afetava cada vez mais à população, a depressão.
Na verdade, a eficácia da fluoxetina mostrou-se apenas ligeiramente superior à dos outros antidepressivos e a grande vantagem era a incidência menor de efeitos colaterais, os pacientes toleravam o medicamento com relativa facilidade.
Outro caso muito conhecido é o do antiinflamatório Vioxx (Rofecoxibe) que prometia pôr fim às dores articulares de pacientes com artrite e artrose. O medicamento foi aprovado pelas agências sanitárias apenas analisando estudos clínicos com poucos pacientes e de curta duração.
Após alguns anos de uso foi realizado estudo amplo que mostrou que o medicamento aumentava os riscos de trombose e infarto de miocárdio, a Merck retirou o medicamento do mercado em 2004 embora soubesse dos altos riscos cardiovasculares que o remédio apresentava há muito tempo.
Uma das principais funções do médico é proteger seu paciente do avanço dos interesses mercantilistas dos laboratórios em detrimento da própria saúde, é dever do médico estar atualizado.
Já no recente caso da acusação contra o paracetamol podemos citar que um amplo estudo sueco dirigido pelo Dr. Viktor Ahlqvist e publicado em abril de 2024 na prestigiosa revista JAMA não mostrou nenhuma associação entre o uso de paracetamol nas grávidas com o aparecimento de autismo.
Este trabalho analisou 2.480.797 crianças nascidas entre 1995 e 2019 que foram acompanhadas até o ano 2021, é o estudo mais extenso e consistente publicado sobre este assunto. O paracetamol continua sendo considerado um medicamento seguro quando indicado pelo médico para uso esporádico durante a gravidez.
Lembrando que durante a gravidez deve ser evitado o uso de qualquer medicamento e quando necessário seu uso deve ser sempre sob indicação do médico ginecologista.
Não há até o momento nenhuma evidência de associação entre uso de medicamento e vacinas como fator causal para o surgimento do autismo. Tudo indica que fatores genéticos e ambientais podem se associar para o aparecimento deste transtorno.
Há uma série de pesquisas em curso visando esclarecer como estes fatores se combinam para desencadear um quadro clínico de autismo. Certamente não há um único fator causal nem uma explicação fácil para esclarecer um transtorno tão complexo e com graus muito diversos de comprometimento neurológico.