O “delamite no poço da Vila Goucki
Cônsul Carlos Renaux comprou em Itajaí dois ‘delamites’ para furar um poço de água para servir à Vila Goucky. O palacete tinha projeto de Eugen Rombach, que aqui chegou por volta de agosto de 1931. Faltava água no alto do morro. Os pedreiros faziam argamassa com água do ribeirão que descia dos fundos, onde ficava a casa de madeira de Maria Padoani e Antônio Baumgärtner.
A construção ficaria pronta por volta de 1933, a nova residência do cônsul, casado com Maria Augusta Lienaerts, de Limbourg, na Holanda, e ex-funcionária do consulado Renaux, então residente em Baden-Baden desde 1922. O cônsul a chamava ‘Mama Goucky’. Era notório que a terceira esposa não era bem aceita pela família, nem apareceu no livro da historiadora Maria Luiza Renaux, em parte pela idade de 30 anos contra os 60 do cônsul. Por que uma mulher bonita e jovem se casaria com um senhor rico e todo poderoso? Contudo, ela mudará a imagem e o comportamento dele em suas benesses na aproximação aos operários.
Era uma dinamite, no linguajar italiano. Uma idosa desconhecida pegou uma forquilha de pêssego e andou de um lado a outro da área para apontar a mina de água, junto ao córrego que descia das terras de França Hoschprung, era 1933. Ali se plantaria, então, uma figueira de demarcação.
A história começa assim: Tio João Baumgärtner, 23 anos, irmão do tecelão Antônio, de quem era aprendiz, resolveu procurar emprego fora de Brusque. E levou Tio Luís, 17 anos, irmão de Maria Padoani, em sua viagem a Curitiba. Nisso estourou a Revolução de 1930 e ambos foram tomados pelo Quartel do Exército, cujo comando segurou Luís para o serviço militar. E João Baumgärtner prosseguiu com os revolucionários para as bandas de Minas Gerais, até a revolução acabar, por volta de 1932.
Ao retornar a Curitiba para juntar-se a Luís, soube que ele tinha sido liberado do quartel e tomado à direção de Palmas. Estaria numa fazenda de Pato Branco, com a intenção de cruzar a fronteira com a Argentina. O fazendeiro não deixava os peões largarem o serviço e, para não pagar salário, mandava matar os fugitivos. Luís não sabia escrever nem ler para entender as coisas. Tio João voltou, então, sem o Luís, precisando tratar de uma doença em casa, ganhar um dinheiro e retomar a busca no Paraná.
Assim, Antônio o indicou para o serviço de abrir um poço de água na nova casa do cônsul, juntando-se a outros desempregados: Guino Eccel e José Airoso. A turma cavou um buraco no ‘X’ onde a senhora idosa riscara a terra, o tanto de 2 a 3 metros de fundura, quando deram com a laje de pedra. Não tinha picareta que perfurasse a rocha, o jeito era abrir com dinamite. O plano era o seguinte: João amarrou o feixe de corda no bastão, o tanto de uma ponta comprida, enquanto Guino repetia no outro bastão do lado oposto. Combinaram acender o pavio juntos e saltar do buraco em direção à casa de Rute Renaux, na FamilienHaus- casas geminadas alugadas a operários, perto do ribeirão Boêmia, hoje Vala do Renaux. Deu certa a corrida, melhor que a planejada; e aguardaram, aguardaram, e mais aguardaram... só um estourou! Decepcionado, João correu para ver o que teria acontecido. Sem os dois ‘delamites’ a rocha não se abriria! Ao olhar na boca do buraco, veio o retardatário em forma de dragão vermelho pulando para fora! João foi arremessado para cima e, como caiu, assim ficou ao chão batido!
A detonação foi ouvida longe, acompanhada de gritos de socorro! Levado para a casinha de madeira de Vó Maria Padoani, na ruela de França Hoschprung, sangrava como ‘porco esfaqueado’, contava ela. Até tiraram as pedrinhas do corpo, mas foi o mestre Paulo Moritz, da Tecelagem, quem trouxe agulha e fio de linhagem para cerzir a boca do estômago. A tecelagem parou, embora poucos curiosos se aproximaram.