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Causos de Brusque: a lenda do Saci Pererê do bairro Santa Luzia

Não faz tempo, na festa de Santa Luzia, celebrada em dezembro, o padre entrou na sacristia da igreja notando uma ‘coisa’ fugidia, que se escondera nos fundos do armário. Achou que o sol tinha lhe embaralhado a visão e reclamou do óculo novo.

Mas o sacristão jurava ter ouvido um silvo fininho e comprido, tipo bicho. E foi ver. E a missa se foi. Tão logo deu silêncio, a ‘coisa’ fugiu para o estacionamento, só tinha carroças, pulou na primeira e se enfiou nas lonas, puxou o rabo bem na hora que o menino olhava. Cansado, adormeceu na aflição.

Depois do prato de almoço da festa, o carroceiro Pregentino saiu em direção à Serra do Moura, cantarolando música caipira. Quando o bicho acordou era o raiar do sol para as bandas dos Oliveira. Então saltou da carroça, esticou o corpo, a canela fina de uma perna só e bateu o gorro vermelho da cabeça.

Procurou nos bolsos. Perdera o cachimbo na sacristia de Santa Luzia. Decidiu fugir pro mato, sem direção nem destino. Nem viu Pregentino capinando a roça de aipim na manhã... No final da tarde, faminto, espreitou os casebres do lugarejo, não viu crianças a brincar, não tinha luz elétrica, era puro sossego. O casebre de Pregentino, um colono solitário, de mulher falecida e de filho trabalhando em Águas Claras, despontava ao anoitecer.

O fogão à lenha lançava, mansamente, uma fumacinha contorcida, sempre branca, anunciando a nostalgia das noites na serra. Então, ele passou a noite assobiando, sentado ao mourão da estrebaria, como há tempo não fazia! Mas, o colono prestou ouvido, e desconfiou daquela quietude, ele sentado ao fogão, tragando fumo de corda no cachimbo. Que seria?

O bicho não parou. Soltou outro silvo, e sucessivos. Pulou um mourão de cerca, divertiu-se com o cavalo xucro na noite, galopando pasto afora, segurando por uma só mão, e fustigando o rabo do animal. Mais silvos e gargalhadas na lomba do pasto, mil gargalhadas. Fez artes: amarrou a crina da égua no estábulo e foi assustar a criação de galinhas, apenas o ganso grasnou de alerta!

Pregentino acordou de madrugada, já atucanado de vez! Olha que o padre lhe dissera que a cachaça fazia mal se tomada todo dia, ele tinha experiência. Ouvir gargalhadas e ficar assustado, nunca imaginara, não poderia ser a sombra da falecida! Não tava doido da cabeça, e correu pro guarda-roupa a buscar a espingarda calibre 28 e, de fininho se aproximou da sala, temendo tropeçar no gato, abrindo a janela ao primeiro silvo no pasto. Então, pegou a sombra do bicho cavalgando no lombo da égua! E gritou desesperado: ‘Cai fora que eu atiro...’ E nessa pegança, o vulto desapareceu da frente, pulou a cerca na direção ao mato. Nem fumacinha se via...

Não se demorou, nas próximas noites fazia lentamente o mesmo trajeto para a casa, não esperando ninguém. Em pouco tempo, os dois estavam de ‘converse’ por entre as frestas da casa, ambos assustados, trocando ameaças! Pregentino o intimidava com tiros de espingarda e o bicho, com travessuras. Espalhou a ração dos animais, amarrou o rabo do gato, abriu a cancela da estrabaria, soltou o curió, pendurou o pato na cerca, deu nó na cola do cavalo, furou as abóboras e abriu a torneira do alambique... Era demais!

Noite seguinte, era lua cheia. Pregentino decidiu esperar o Saci Pererê na porta de casa. Logo ele apareceu na égua xucra, soltou três silvos de arrepiar a nuca e jogou barro na cozinha. Veio a gargalhada! Quando repetiu, Pregentino chutou a porta e, apareceu uma sombra, apertou o bum de clarão de pólvora. Disparou dois tiros de chumbo com pólvora verde. No compasso, ouviu-se o silêncio batido por toda aquela noite, feito dor de lamento! Dias depois, e seguintes, no lado dos Oliveira, fundo da mata, ouve-se ainda hoje o gemido de animal ferido. Alguns moradores da serra dizem ser o uivo de onça, talvez um bugio vermelho. Na conversa de boteco, Pregentino diz ter falado com ele, e anuncia que a sombra voltará das matas na próxima festa de Santa Luzia. Pergunte quando passar a carroça na direção do Moura.