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Os cabelos de Sansão

Sansão foi um herói épico do povo hebreu. Atuou como juiz de seu povo e se destacou pela força descomunal, ligada ao voto feito a Deus de nunca cortar os cabelos. Assim, era invencível nos frequentes combates com os filisteus, inimigos do seu povo. Mas o herói tinha uma queda incontrolável pelas mulheres filisteias, o que o fez ser seduzido pela astuta Dalila, a quem revelou seu segredo. Teve os cabelos cortados, perdeu a força e foi capturado pelos inimigos. Com os olhos furados e atado a uma pedra de moinho, ficou preso como um boi cangado, até morrer destruindo o templo filisteu.

Todos nós, independente da compleição física ou dos talentos individuais, possuímos um manancial de força, que está na essência da vida que nos foi dada. Desenvolver essa força, sem entregá-la aos inimigos, é a nossa tarefa primordial. Mas é muito fácil ser seduzido e deixar a cabeça ser raspada. Basta perder a noção dos limites do que se pode ter, cobiçar, usufruir. Não faltavam belas mulheres na tribo de Sansão, mas ele atravessou as linhas inimigas e se deixou seduzir por quem só queria sugar seu segredo e sua força. Isso seria evitado se ele tivesse seguido algumas regras básicas, algumas restrições fundamentais que, longe de lhe podarem a felicidade, seriam caminho seguro para ela. Ele poderia ter atentado para as 10 regras básicas da Lei do seu povo, que são também os princípios supremos para a justiça e a dignidade da vida humana em qualquer época ou cultura. Regras, proibições e restrições são fundamentais. Reconhecê-las e utilizá-las com inteligência é princípio de Sabedoria.

Em nossa época, parece que não temos mais noção do permitido e do proibido, do justo, do conveniente. O exagero e a falta de limites nos fazem cruzar as fronteiras o tempo todo, e assim perdemos nossa força. A diversão é coisa boa, mas é preciso verificar se estamos deixando com ela apenas nosso estresse, ou se ela está nos arrancando os cabelos e minando nossa essência vital.

Há muitos carecas morais, que parecem já não ter energia para viver. Esvoaçam de emprego em emprego, de relacionamento em relacionamento, porque todo trabalho é penoso, toda dificuldade é intransponível, todo patrão é explorador, toda regra é opressiva, toda leitura é penosa, todo estudo é complicado demais. Coitados! Deixaram os cabelos pelo caminho e vagam cegos como bois de canga, atados às próprias ilusões. Por outro lado, outros de desdobram em inúmeros trabalhos e responsabilidades, com competência, brilho e alegria. Sabem que têm dentro de si um manancial de força, e não abrem mão dele por qualquer diversão barata, preguiça ou falsa felicidade. Outros ainda, depois de terem vivido várias décadas, parecem ainda mais fortes, são ativos, produtivos e conservam o sorriso e a paz de espírito de quem, apesar das lutas e quedas da vida, conservaram e cultivaram sua cabeleira. Assim, são inspiração para quem pretende, como eles, combater o bom combate.

Como anda seu manancial de força? Tente parar por um momento e buscá-lo dentro de si. Se você ainda está respirando, é porque alguma centelha dele permanece no seu interior. Basta deixar que os cabelos cresçam novamente.