Primavera de 1974: a flor da felicidade
Depois de um inverno gélido, o mais frio dos últimos 25 anos e cumprindo as regras do inexorável calendário cósmico, a primavera bateu ponto às 15h19 desta segunda-feira. No último final de semana, os dias ficaram ensolarados e quentes como que, para anunciar o novo tempo primaveril. Mas, não deu para se entusiasmar. Conforme tinha sido previsto pelos senhores do tempo e dos ventos, desde o final da tarde do domingo, a chuva voltou e com ela um frio de usar cobertores, blusas e jaquetas. Pelo jeito, o inverno vai continuar usurpando o espaço temporal da estação primaveril.
Quando estudei na Bélgica, enfrentei o inverno mais rigoroso de minha vida. No entanto, chegou março, veio abril, o sol começou a mostrar a cara e os dias foram esquentando. Em maio — primavera já avançada no seu tempo — a paisagem de Bruxelas havia se transformado completamente. Nos bosques, praças e ruas, as árvores tinham deixado pra trás a triste silhueta hibernal e se vestido de novas e verdejantes folhas.
Nos jardins, os canteiros estampavam belos tapetes multicoloridos. Já não se respirava mais o ar cinzento dos dias invernosos e as pessoas, mais alegres e descontraídas, voltaram a caminhar pelas ruas da capital belga. Não é por nada que a primavera tem sido chamada de estação das flores, do renascer de um novo ciclo em nossas existências. Entusiasmado, alguém chegou a escrever que esta estação é o “palco onde a vida encena o seu mais belo espetáculo”. É claro que isso vale, principalmente, para os países de clima frio.
Aproveitei o dia 1º de Maio daquele distante ano de 1974, para visitar Paris. Na esplêndida Champs-Élysées, com seus belíssimos canteiros exuberantemente floridos, assisti ao desfile da classe operária organizado pelos sindicatos e partidos políticos. E me chamou a atenção a quantidade de vendedores da pequena, alvíssima e perfumosa Muguet du Bois, que os franceses dizem ser a flor da felicidade. Seguindo uma tradição que vem do século 16, nesse dia, os franceses costumam presentear amigos e até estranhos com um pequeno buquê desse delicado e belo lírio do bosque.
Ao som do rufar e da cadência dos tambores, aos gritos de protestos e discursos, sentindo-se donos do mundo, os trabalhadores desfilaram durante mais de duas horas pela charmosa avenida parisiense. Enquanto isso, indiferentes às questões políticas e econômicas do país, na calçada, turistas e franceses compravam e presenteavam amigos com pequenos ramos da graciosa flor.
Durante o meu passeio, não deixei de visitar o Louvre, a Torre Eiffel, a Notre-Dame e os outros pontos turísticos. No entanto, não me esqueci mais daquela cena das pessoas se presenteando com a bela flor da felicidade. Entusiasmado, eu também aderi à tradição florística. Comprei um buquê de muguet e dei de presente para a minha amada Ana Maria. Não creio em superstição, mas vivemos felizes há mais de 50 anos.