Rio Itajaí-Mirim, ano de 1842: O romântico e equivocado relato de Van Lede
Em 1842, o engenheiro belga Charles Maximiliano Van Lede visitou a Província de Santa Catarina e fez uma incursão pelos rios Itajaí-Açu, que ele chamou de Itajaí Grande e também pelo nosso Itajaí-Mirim. Pretendia estudar as terras ribeirinhas, a fim de fundar uma colônia com emigrantes do seu país. Isso de fato aconteceu três anos mais tarde, com a fundação de uma colônia belga que deu origem ao município de Ilhota.
Das suas observações e apontamentos, publicou em francês uma obra com o título Memória Histórica, Descritiva, Estatística e Comercial sobre a Província de Santa Catarina. Algumas páginas registram as suas impressões sobre o nosso Itajaí-Mirim e as terras ribeirinhas apropriadas para a atividade agrícola, por ele considerado “um rio notável pelas numerosas voltas, pela profundidade e tranquilidade das águas, pelo pitoresco das margens e fertilidade das terras que atravessa”.
Dando asas à sua veia poética, escreveu que nada era mais encantador do que uma viagem pelo Itajaí-Mirim, pois a “luxuriante vegetação que cobria as margens” era iluminada pelo “sol esplêndido do Brasil”, para ele “um encanto desconhecido nas regiões europeias”. Extasiado, Van Lede registrou que a sua pequena embarcação “deslizava graciosamente pela superfície líquida”, permitindo-lhe contemplar a variedade de pássaros com suas “belas plumagens e a diversidade de seus cantos, que davam vida a essa deliciosa solidão”.
Sobre a navegabilidade do nosso rio — informação importante para a época — escreveu que tinha subido o rio por “uma longa extensão, muito além de qualquer habitação, até ao Taboleiro”. Afimou que o mesmo era navegável “por embarcações de calado bastante grande, com trechos de profundidade de até dez metros e poderia ser uma importante via de comunicação e de transporte de pessoas e cargas.
Apesar de sua formação de engenheiro, penso que Van Lede era melhor poeta do que técnico em navegação fluvial. Sua anotação sobre a navegabilidade do Itajaí-Mirim era completamente equivocada e foi desmentida por Schnéeburg, quando aqui chegou dezoito anos depois. Vendo que o nosso rio só comportava a navegação de canoas e pequenas lanchas, o Barão não se cansou de reivindicar a construção de uma estrada de rodagem para Itajaí e o litoral.
Na verdade, Van Lede navegou numa pequena canoa e percorreu apenas um curto trecho do rio, o que pode explicar o seu equívoco sobre a profundidade e navegabilidade do Itajaí-Mirim.
Suas anotações, portanto, valem apenas como poesia e, naquela época, devem ter motivado alguns dos seus compatriotas a emigrar para o Brasil, a fim de contemplar as maravilhosas plumagens e os belos cantos das nossas aves.