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Sobre a gestão da saúde pública

O noticiário da semana passada foi tomado pela decisão do prefeito Paulo Eccel de intervir na administração do Hospital de Azambuja, na tentativa de evitar o anunciado fechamento do Pronto Socorro daquela casa de saúde. A decisão provocou reações de todos os lados, desde os que buscaram o pronto atendimento nos primeiros dias, aliviados com a continuidade do serviço até a oposição firme da Arquidiocese de Florianópolis e de outros colaboradores do hospital.

A Igreja Católica desenvolve, há séculos, trabalhos sociais imprescindíveis, onde o poder público não tem possibilidade e o setor privado não tem interesse em manter. No rastro de São Camilo, São Vicente de Paulo, Madre Teresa ou Irmã Dulce, milhares de religiosos se dedicam abnegadamente ao cuidado de crianças, idosos, doentes e desvalidos em geral, em todos os cantos do mundo.

Mas a saúde pública não pode ficar entregue somente à caridade cristã. É obrigação do Estado. Há muito, o pronto socorro de Azambuja prestava um atendimento público a toda a região, utilizando um orçamento que nunca fechava. Daí o anunciado fechamento desse atendimento.

A gravidade da situação já está sobejamente estabelecida e comentada. As contrariedades manifestas acerca do remédio adotado pelo poder público apenas ressaltam o alto grau de delicadeza e complexidade da decisão, que não deixa ninguém confortável, muito menos o prefeito e sua equipe.

Afastando a administração anterior, o Município evitou o fechamento da unidade, ao menos num primeiro momento, mas a nova administração assume o ônus de gerir todo o hospital, o que certamente será uma tarefa para lá de espinhosa. Ressalte-se que, uma vez afastada da gestão, a Arquidiocese de Florianópolis não tem mais a obrigação de prover o hospital a partir de seus recursos. Isso agora cabe ao Município e aos novos gestores. O desafio é gigantesco e os riscos enormes. O poder público, municipal e federal, será capaz de administrar esse orçamento indigesto?

A solução definitiva para a saúde passa por um novo pacto federativo, como observou o Prof. Ronaldo Uller, professor de Direito Administrativo da UNIFEBE (aliás, meu consultor especial para este artigo), neste jornal na última quinta-feira. Os municípios precisam ter prioridade sobre os impostos que arrecadam, para que não precisem mendigar verbas, nunca suficientes, do governo federal. A solução de hoje pode se tornar problema maior amanhã sem o aporte de recursos que façam frente aos enormes desafios da saúde pública.