Transmigração: de corpo e alma
Do latim transmigratio, a palavra trasnsmigração significa: “Ação de um povo, que passa de um país para outro” (Lello Universal). Para a Geografia, “é uma migração temporária”. Está presente desde o início da história da humanidade. Populações se deslocam por razões as mais diversas. A busca por melhores condições de vida é uma delas. E foi o que ocasionou a vinda, em agosto de 1869, de cerca de 80 pessoas de Opole, região da Alta Silésia/Polônia, para o sul do Brasil. Foi considerada uma imigração espontânea, isso é, vieram por conta e risco – e não a convite oficial do Governo Imperial (como os alemães e italianos).
Ao chegarem, foram alocados na Colônia Príncipe Dom Pedro, abandonada por colonos irlandeses. Distava cerca de 9 km da Colônia Itajahy, que recebera colonos alemães. Segundo Ruy Wachowicz: “Os dirigentes alemães tudo fizeram para mantê-los na região. Consideravam que os poloneses não eram obstáculo a sua hegemonia”.
Os imigrantes polacos da Colônia Brusque, depois de dois anos (1869/1871), desejavam retirar-se da localidade. Um documento de 14/8/1871, assinado pelo Subdelegado Germano Aug. Thiemsen relata que “Os abaixo assignados, tem pedido a V.S. passaporte para a Província do Paraná”. Solicitação indeferida, “por não estar de sua competência passar passaportes”. Haviam 27 assinaturas de colonos. Muitos nomes não eram da primeira leva. Deveriam ser das levas seguintes, porém não encontrei listagens a respeito.
Negociações aconteceram nesse período. O Governo Imperial, manifestou-se proibindo a saída deles de Brusque para Curitiba.
Pesquisadores/historiadores/escritores insistem que a transmigração tenha sido um ato oficial. Longe disso. A menos que o documento referido seja encontrado, atestando sua veracidade. Por enquanto, continua sendo um desafio: D. Pedro II não autorizou a saída dos polacos de Brusque. Na ocasião, estava no Egito! E não haviam as mídias...
Wachowicz cita: “Nessas circunstâncias, Sebastião Saporski chama-os para o Paraná. Este sabia muito bem que a administração da colônia procuraria impedir. Para consegui-la usou de uma estratégia. Mandou que parte dos homens casados, 13 ao todo, viessem para Curitiba a pé, enquanto outros permaneceriam na colônia, num total de 19 homens casados, para cuidar das mulheres e crianças”.
O outro lado dessa história Wachowicz comenta com propriedade, pois foi um dos estudiosos do tema: “O aparecimento de Saporski em Curitiba, liderando dezenas de imigrantes poloneses com a promessa de que seria apenas a ponta de uma numerosa imigração, veio perturbar os planos que os alemães possuíam para ocupar os arredores da cidade. Os alemães já detinham o monopólio de abastecimento da capital de vários produtos hortifrutigranjeiros. A chegada dos poloneses seria uma ameaça a esse monopólio”.
Mas a narrativa só piora nos próximos dois anos, quando documentos da Câmara Municipal de Curitiba atestam as dificuldades relatadas pelos transmigrados de Brusque para o rocio curitibano do Pilarzinho/PR.
Em 1874, conforme Atas da Câmara, eles estavam à mercê de sua própria sorte. Efeitos de uma transmigração sofrida, a de corpo. E com as provações que a de alma, pela saudade, distância, desafios, infligiu. Vencê-las foi uma questão de sobrevivência. Mérito próprio. Nada de endeusar figuras que foram, simplesmente, coadjuvantes na história de imigrantes poloneses. Eles, sim, foram heróis de suas próprias histórias de resiliência.