Túnel da ferrovia Brusque Itajaí: o grande negócio do Cônsul Renaux
Carl Renaux viajou a Europa em 1909 atrás de um negócio revolucionário à região do Itajaí-mirim, para o projeto ‘Fábrica de Cimento Portland’, no Ribeirão do Ouro. A produção seria escoada por ferrovia da fábrica à Vila Brusque, nas terras de Germano Hoffmann. Carl descobriu a necessidade de cimento com os clientes pela loja do Palacete Selma Wagner, centro. Sua casa foi erguida com cimento e cal entre 1888 e 1892. O primeiro foi de Pe. João Fritzen que requereu 4 sacas para reforma da igreja, em 1897. Depois, novo pedido para a Escola Paroquial, hoje Colégio Santo Antônio, 1902.
A loja era a única a importar cimento e cal de construção, trazendo do Rio de Janeiro por lanchas. Em 1905, Carl comprou a mina de calcário medindo 400m de comprimento por 300m de largura, lado direito do Ouro até o Sete. Foram os moradores que propuseram a exploração, e venderam as terras. Carl comprou um lote de 3km por 1km largura, e contratou H. Roder, 1º Engenheiro da ‘Eisenwerk vormals Nagel & Kaemp’, em Hamburg, para análise da composição. A pedra pura de cor azul escuro foi encontrada em 3 lugares e testada no laboratório de M.G. Semper, que sinalizou para uma fábrica possível a produzir 120 mil barricas de cimento com 150 kg, durante 125 anos.
Em 1911, Carl esteve na Holanda para contratar o Eng. Roder que procedesse ao levantamento no local. Seu Relatório ‘Bericht weber oertchiche Verhaltnisse zum Bau einer Portland-Cementfabrik am Ouro’ propôs fábrica com 4 fornos à lenha, casas de moinho, depósito para 30 mil barricas, um dique d´água para movimentar as máquinas de moenda, a instalação de gerador de energia hidráulica com força de 500 CV em 2 turbinas, com queda d’água de 6m de desnível, e uma ferrovia do Ouro a Brusque, devendo prosseguir o produto em lanchas para o Porto de Itajaí.
Estudo posterior propôs substituir por linha aérea do Ouro a Brusque, movida à eletricidade, e baldear para a linha férrea de Brusque a Itajaí. O orçamento atingiu financiamento de 2.400.000 de marcos, algo em torno de 3 bilhões de reais, para fabricar e transportar cimento com capital alemão e nacional.
No Relatório de 1911, Roder estimou o preço da barrica fabricada no Ouro e colocada no Rio a 8,80 francos cada, contra o preço de importação de Lisboa para o Rio a 40 francos, com qualidade inferior segundo ele. A margem de lucro era superior a 30 francos!
Mas, viabilizar o negócio imporá a Carl residir na Europa e, por isso, em 1913, ele passou a morar em Arnhem, na Holanda, perto de financistas. A aristocracia do Imperador Guilherme II acatou bem sua identidade de ‘Capitão da Guarda Nacional do Brasil’. Ainda teve que postular da República o título de ‘Cônsul do Brasil’, em 1922, e passará a morar em Baden-Baden.
Mas a Guerra veio com o afundamento do vapor mercante ‘Paraná’, 1917, rompendo a diplomacia Brasil x Alemanha. Já havia capital para a construção da estrada de ferro Brusque a Itajaí pelo ramal Estrada de Ferrovia Santa Catarina, que interligava Mosquitinho a Itajaí, anos 30. Contudo, a cada Governo afloravam alterações de projetos, e entraves!
Em 1947, iniciou a perfuração do morro Hoffmann; ainda, a alienação de terras no morro SE Bandeirante; e o viaduto Rua Manoel Vargas com a Rod. Antônio Heil. Até que a Revolução Militar de 64 enterrou de vez o projeto, e do trem também, optando pela política de transporte em caminhões. Nos anos 1970, as caçambas desciam carregadas de calcário diretamente do Ouro para a fábrica Portland, em Itajaí. Sobrou apenas o túnel.