“Vencer ou Morrer”: a pesquisa que eternizou a saga dos trentinos em Santa Catarina
No último dia 3, o Centro Universitário da Fundação Educacional de Brusque – Unifebe, responsável pela edição atualizada do clássico “Vencer ou Morrer: Camponeses Trentinos (Vênetos e Lombardos) nas Florestas Brasileiras – Santa Catarina 1875-1900”, sediou o primeiro lançamento do livro. Para a alegria dos seus fãs, o autor Renzo Maria Grosselli, esteve presente em todas as solenidades, as quais aconteceram em Nova Trento, Blumenau, Rodeio e Rio dos Cedros, encerrando-se no dia 12, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em Florianópolis.
A edição atualizada revive uma das mais abrangentes investigações sobre a imigração trentina no Brasil. Iniciada em 1982, a pesquisa deu origem à obra que se tornaria referência incontornável na historiografia da colonização dos povos de língua italiana no país. Grosselli mergulhou na história do Trentino do século XIX, quando a região ainda integrava o Império Austro-Húngaro, e acompanhou o percurso dos milhares de camponeses que deixaram suas aldeias rumo às florestas do sul do Brasil.
Durante um ano de intensa pesquisa nos arquivos de Trento, o autor reuniu farta documentação — petições, cartas, registros policiais e relatórios administrativos — que lhe permitiram reconstruir o fenômeno migratório entre 1875 e 1900. Identificou a estrutura da chamada “Organização Caetano Pinto”, responsável por organizar parte da emigração dos povos de língua italiana, e elaborou uma lista com cerca de 16 mil nomes de trentinos que partiram para as Américas, estimando que o total tenha ultrapassado 30 mil pessoas.
Em 1983, acompanhado da esposa Annarosa Gianotti e da filha Serena, de apenas um ano, Grosselli chegou a Santa Catarina. A família se fixou em Nova Trento, onde foram acolhidos com generosidade pelos descendentes dos imigrantes que desejava estudar. Com recursos próprios e muito sacrifício, o casal dedicou-se integralmente à coleta de fontes locais, à catalogação de obras sobre a colonização do sul do Brasil e à escuta dos descendentes trentinos. Ao todo, o pesquisador gravou cerca de 30 entrevistas — mais de 20 horas de relatos que revelaram memórias, costumes e percepções sobre a travessia e a adaptação ao novo mundo.
Por um ano, Grosselli e Annarosa exploraram nove arquivos catarinenses, entre eles os de Florianópolis, Blumenau, Brusque, e Nova Trento. Ali, localizaram correspondências oficiais, registros de terras, certidões de batismo, matrimônio e óbito, além de relatórios da Presidência da Província. Esses documentos permitiram traçar o cotidiano das famílias trentinas nas colônias Blumenau, Itajaí, Azambuja, Grão-Pará e Luís Alves, revelando desde a compra dos lotes e dívidas com o Estado até os conflitos e relações entre colonos e autoridades.
Em 1984, após concluir a etapa brasileira, Grosselli regressou à Itália, onde finalizou o livro publicado em 1986. O resultado foi um trabalho monumental que uniu rigor científico, sensibilidade humana e profundo respeito pela memória dos imigrantes. Com tradução de Solange Ugo Luques e dee Ciro Mioranza, e apresentação da professora Roselys Izabel Correa dos Santos, e editado pela editora da Ufsc, o livro foi lançado no Brasil em 1987.
A publicação da versão atualizada (2025), pela Editora da Unifebe, é o resultado de um projeto cultural desenvolvido pela Associação Beneficente Besenello, de Nova Trento, e aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), que possibilitou a captação dos recursos indispensáveis para a impressão, que foi viabilizada graças ao incentivo do professor Luiz Pedro Benvenutti, empresas ZM S.A. (Brusque), Toalhas Atlântica (Brusque), e Sta. Catharina Chocolateria (Guabiruba). O projeto também contou com o apoio institucional do Banco Cooperativo Sicoob S.A., da Prefeitura de Nova Trento e do Ministério da Cultura.