Mas o que as empresas precisam fazer para descartar os seus resíduos de forma correta? O engenheiro ambiental Diego Furtado explica que existem duas possibilidades: construir a própria estação de tratamento de efluentes ou enviar os resíduos para uma estação terceirizada.

A primeira opção demanda um alto investimento. Dependendo do porte da empresa, pode chegar à casa dos milhões. A manutenção também não é barata, o que no fim das contas encarece ainda mais o custo da produção.

Por este motivo, são poucas as empresas que têm a própria estação de tratamento de efluentes em Brusque. O engenheiro ambiental afirma, entretanto, que essas são as principais responsáveis pelo descarte irregular de efluentes no rio Itajaí-Mirim, justamente por uma questão de custo.

Manter uma estação própria ou terceirizar o tratamento de efluentes gera um grande custo para as empresas | Foto: Bárbara Sales

“Às vezes pode chegar a R$ 50, R$ 200, R$ 300 mil por mês só para a empresa manter a estação. Então, qualquer descarte durante a noite, já reduz as despesas. Se a empresa desliga a estação durante três, quatro horas, é um monte de efluente descartado no rio, e um monte de efluente no final do mês pode representar o valor de um carro zero para a empresa. É muito dinheiro envolvido, por isso se arriscam”, diz.

É muito dinheiro envolvido, por isso se arriscam. Ainda mais que não tem fiscalização

De acordo com Furtado, além de construir toda a estrutura, a estação de tratamento própria precisa seguir as mesmas regras que são impostas a uma estação terceirizada, que é especializada neste trabalho.

“Uma vez decidindo fazer o tratamento na própria empresa, o órgão ambiental começa a acompanhar os parâmetros do efluente que sai da estação. De tempos em tempos a empresa também tem que mandar relatório de monitoramento. Não basta tratar, tem que tratar certo”.

Riovivo atende mais de 150 empresas

A segunda opção também tem um custo elevado, porém, acaba se tornando mais viável do que a primeira. Em Brusque, a empresa Riovivo Ambiental faz o tratamento dos resíduos de mais de 150 empresas. A maioria é de Brusque, mas também recebe efluentes de Blumenau, Gaspar, Jaraguá do Sul e São Bento do Sul, por exemplo.

Na Riovivo, o tratamento pode ser feito de duas formas: via tubulação ou por meio de transporte por caminhão.

Das 150, 17 empresas são ligadas na rede, que tem quase 50 quilômetros de extensão em Brusque. A maior parte são têxteis, de acordo com o gerente-geral, Gustavo Pereira Bez.

Desta forma, quando a Riovivo é contratada, se propõe a construir a caixa coletora que faz o bombeamento do efluente até a estação, no bairro Steffen. No dia 20 de cada mês, a empresa faz a leitura do medidor – processo semelhante ao utilizado para gerar a fatura de água, por exemplo. É apurado o período do dia 21 ao dia 20 de cada mês e, conforme o volume de efluentes enviado à estação pelas empresas, é gerada a fatura.

As empresas que não são ligadas à tubulação podem levar os seus efluentes de caminhão até a estação. Esta é a forma mais utilizada, segundo o gerente-geral da empresa.

Neste caso, como não há um medidor de vazão, todo caminhão de resíduo que chega à estação tem que passar por uma balança de pesagem logo na entrada. Depois, a carga é descarregada no local indicado e é feita uma nova pesagem do caminhão. A cobrança também corresponde do dia 21 ao dia 20 de cada mês.

“Ao invés de apurar o volume que passou pela tubulação, nós somamos a quantidade de cargas, o peso que foi destinado, e emitimos a fatura”, explica Bez.

Teríamos potencial para tratar todo o volume da cidade. É o que almejamos há muito tempo

A Riovivo estima que Brusque gera em torno de 1 milhão de metros cúbicos de efluentes líquidos por mês. Desses, segundo o cálculo da empresa, 500 mil metros cúbicos é de esgoto doméstico e o restante é de efluente industrial de vários setores. A Riovivo trata na faixa de 200 mil metros cúbicos por mês, ou seja, pelo levantamento da empresa, em torno de 800 mil metros cúbicos são descartados diretamente no rio Itajaí-Mirim mensalmente.

“Temos capacidade para tratar até mil metros cúbicos por hora. Desse 1 milhão de metros cúbicos por mês gerado em Brusque, teríamos capacidade de tratar 800 mil, com potencial para tratar todo o volume da cidade. É o que almejamos há muito tempo”, diz.

A situação do rio Itajaí-Mirim, entretanto, poderia ser ainda pior. Em Brusque, para minimizar o problema de contaminação, a prefeitura obriga, desde 1995, que as residências tenham sistema de fossa séptica e filtro. De acordo com a Vigilância Sanitária, todas as instalações são acompanhadas, de modo que sejam feitas corretamente.

Segundo o órgão, o sistema segura o resíduo grosso, e libera apenas a parte líquida, tendo eficácia de 60% a 70%, apesar de não ser o ideal, que seria a estação de tratamento.

Trabalho monitorado semanalmente

Gustavo Pereira Bez, gerente-geral da Riovivo, diz que a empresa passa por uma rigorosa fiscalização do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). Semanalmente, amostras dos efluentes da Riovivo são coletadas por um laboratório, que envia as análises para o órgão estadual.

Além disso, análises mais criteriosas são realizadas quinzenal ou mensalmente. Bez ressalta que a empresa também tem um controle rigoroso, principalmente, em sua rede.

“Depois de feita a interligação com a nossa rede, a responsabilidade é toda da Riovivo. A manutenção preventiva e corretiva, todos os cuidados que precisa ter, segurança ambiental e patrimonial do cliente é conosco”.

Apesar dos esforços em proporcionar o tratamento correto dos efluentes industriais, o gerente-geral da Riovivo observa que muitos clientes fazem o descarte clandestino de parte dos resíduos gerados. “Tem casos que, com certeza, o volume que destinam conosco não é condizente com o que geram. Há desvio de volume, sim”.

Ilustração: Ed Carlos Santana

Núcleo visa conscientização
A Associação Empresarial de Brusque (Acibr) criou o Núcleo de Gestão Ambiental com o objetivo de conscientizar as empresas e centralizar o suporte de gestão ambiental para a disseminação eficiente de práticas sustentáveis.

O coordenador do núcleo, Luiz Gustavo de Freitas, diz que o descarte irregular de resíduos industriais é uma das principais preocupações em função do impacto e dano irreversível ao meio ambiente.

“Este assunto já foi muito discutido em nossas reuniões, principalmente com a presença do superintendente da Fundema, Cristiano Olinger. É papel do Núcleo de Gestão Ambiental conjugar esforços reiterados em todas as reuniões realizadas com as empresas associadas no reforço das políticas de adequação ambiental das indústrias de nossa cidade, atuando na ação corretiva de prevenção de novos incidentes”.


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