Tratamento revolucionário para o traumatismo medular
Traumatismos da coluna vertebral que afetam diretamente a medula espinhal, o componente nervoso necessário para nossas funções motoras, sensitivas, e autônomas do nosso corpo, são muito frequentes no Brasil e no mundo.
Estes traumatismos deixam severas sequelas como tetraplegia e paraplegia além das alterações no funcionamento do aparelho gênito-urinário e intestinal. Se estima que no Brasil acontecem ao redor de mil acidentes com traumatismo e lesão medular por mês.
Até recentemente não existia nenhuma intervenção terapêutica realmente eficaz para a recuperação parcial ou total destes pacientes. A intervenção cirúrgica precoce visa descomprimir a medula para diminuir os danos e em muitos casos é seguida de cirurgias para estabilizar a região fraturada.
Fiz meu ensino básico e fundamental em colégios católicos onde o estudo bíblico era obrigatório. Lembro que uma das passagens mais fascinantes e surpreendentes era aquela de Jesus curando o paralítico em Cafarnaum relatada em Marcos 2:1-12 (também em Mateus e Lucas), a famosa frase: Levanta-te e anda! povoava nossas mentes infantis.
Ao longo de milhares de anos a humanidade nunca mais teve conhecimento de milagres semelhantes além das pantomimas de falsos pastores em templos do mundo todo.
Uma equipe de cientistas e médicos liderados pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio tem presenciado alguns casos de recuperação de traumas raquimedulares severos nos últimos anos, desta vez não na forma de milagre e sim na forma de ciência. A Dra. Tatiana é a Diretora do Laboratório de Biologia da Matriz extracelular da UFRJ.
A laminina é uma proteína presente no espaço extracelular de muitas espécies animais, no ser humano aparece muito precocemente já no embrião de 8 células.
Já se conhecia a importância da laminina para a formação, proliferação e migração do tecido nervoso, principalmente na formação de umas células chamadas de oligodendroglias, que são fundamentais para a formação da mielina, uma capa que recobre todos os nossos nervos.
A equipe da Dra. Tatiana descobriu que a laminina não tinha grande efeito terapêutico por ser pouco estável e então veio a ideia de pesquisar uma forma mais estável de laminina. Num meio com pH ácido a laminina forma um polímero (conjunto de moléculas) ao qual deram o nome de Polilaminina.
Os pesquisadores descobriram que a Polilaminina era muito eficaz em acelerar a regeneração de axónios (os nervos são conjuntos de axônios) tanto em experimentos in vitro quanto in vivo.
Em 2010, a Dra. Karla Menezes da equipe da Dra. Tatiana publicou os resultados positivos obtidos com o uso da Polilaminina em lesões medulares de ratos.
Finalmente em 2017 se inicia o primeiro estudo com o uso do polímero em lesões medulares agudas em humanos, a recuperação muito rápida do segundo paciente do estudo obrigou os pesquisadores a suprimir o chamado “grupo controle” quer dizer aquele grupo que não receberia o fármaco.
Atualmente há ao redor de 8 casos de pacientes com diversos graus de recuperação neurológica que notoriamente superam os resultados habituais sem o uso da medicação.
Recentemente o tratamento tem sido aplicado em alguns casos de trauma medular por liminar judicial como “uso compassivo”, também com resultados iniciais positivos.
Tenho a impressão de que nos próximos meses este tipo de autorização e uso pode se tornar frequente, um desafio tanto para a equipe de pesquisa quanto para o sistema de saúde.
Em janeiro a Anvisa autorizou o estudo clínico de fase 1 já com a medicamento patenteado e produzido pelo laboratório farmacêutico brasileiro Cristália.
A Dra. Tatiana Coelho de Sampaio é um excelente motivo de inspiração para nossos jovens que tem vocação para a pesquisa científica.
Ela tem dedicado 25 anos da sua vida à essa linha de pesquisa e há uma grande expectativa que a Polilaminina se torne um medicamento revolucionário no tratamento dos traumatismos da medula espinhal, seria uma das maiores conquistas da ciência brasileira.
A Dra. Tatiana, como boa carioca que é, adora samba, corroborando o refrão que diz que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”.
Viva a Ciência Brasileira!