Termômetro da Violência Doméstica ajudou brusquenses a identificar abusos: “não era proteção, era controle”
Ferramenta do MP-SC orienta usuários e reforça ações de combate
Lançado no dia 2 de agosto de 2024, há pouco mais de um ano, o Termômetro da Violência Doméstica, do Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC), ainda é pouco conhecido e raramente lembrado pelas vítimas.
Inspirada em uma iniciativa do Ministério Público do Mato Grosso do Sul (MP-MS), a ferramenta integra a campanha “Oi, meu nome é Maria”. O recurso digital ajuda mulheres a identificar comportamentos abusivos em seus relacionamentos e a localizar serviços de apoio.
O lançamento ocorreu durante o 3º Ciclo de Diálogos sobre a Lei Maria da Penha, promovido no Agosto Lilás, mês dedicado ao enfrentamento da violência contra a mulher.
Como funciona
Desenvolvido pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar (Neavid), o Termômetro é um questionário de 22 perguntas disponível no site do MP-SC. O preenchimento é anônimo e aborda situações como:
mentiras frequentes;
controle de amizades e familiares;
ofensas e humilhações;
monitoramento de mensagens;
agressões físicas ou sexuais.
Ao final, o relacionamento é classificado em quatro níveis, que vão de “Você não relatou comportamentos violentos” até “Sua vida está em perigo! Denuncie”.
A usuária também recebe contatos das promotorias locais e de serviços de apoio, além de links para campanhas e telefones úteis.
Segundo o MP-SC, o objetivo é oferecer informação e autoconhecimento. A ferramenta não substitui a denúncia, mas pode estimular a vítima a procurar ajuda.
Relatos de quem usou
Duas jovens de 25 anos, moradoras de Brusque e amigas, que preferiram não se identificar, contaram como o Termômetro foi decisivo em suas vidas.
A primeira, do bairro Limeira, conheceu a plataforma por meio de um stories no Instagram. Ao responder o questionário, percebeu situações de abuso em um relacionamento antigo.
"É um quiz bem completo e que me ajudou muito. Com ele percebi que algumas coisas, que ao longo dos anos a gente acha normal em um relacionamento, na verdade não são".
Ela afirma que o teste a ajudou a tomar a decisão de encerrar a relação. "Tenho certeza que ele pode ajudar muitas mulheres a sair de relacionamentos abusivos. A divulgação deveria ser maior para que mais vítimas tenham acesso".
A segunda jovem, moradora do Guarani, conheceu a ferramenta em uma aula de direito, quando o professor apresentou o Termômetro como exemplo. Na época, vivia um relacionamento abusivo.
"Ele me culpava pelos erros, me humilhava e dizia que era por amor. Mexia no meu celular, proibia contatos e justificava tudo como cuidado. Aos poucos, entendi que aquilo não era proteção, era controle".
Segundo ela, a plataforma foi fundamental para romper o ciclo. "O Termômetro me ajudou a detectar o abuso e me deu segurança, já que o preenchimento é sigiloso. Quando percebi a gravidade, decidi me afastar daquela pessoa".
Assim como a amiga, ela defende maior visibilidade da iniciativa. "É um programa completo e que poderia ajudar muitas mulheres. O que falta é divulgação".
Cenário da violência doméstica
Entre 2020 e 2024, a Polícia Civil de Brusque registrou 4.611 casos de violência doméstica, envolvendo 7.149 vítimas, das quais 91% eram mulheres. Nesse período, a cidade teve média de 2,5 ocorrências por dia.
As ameaças lideraram os registros (2.438), seguidas por lesão corporal leve (1.429), injúria (1.007) e vias de fato (626). Os meses de outubro, dezembro e setembro concentraram mais casos.
Em 2024, foram 1.900 ocorrências, alta de 17% em relação ao ano anterior. O número de estupros também aumentou, de 36 para 41. Os crimes ocorrem principalmente nos fins de semana, e a faixa etária mais atingida é de 25 a 34 anos. Ex-companheiros respondem por 31% dos casos.
No estado, foram 76.308 registros no período. A ameaça representou quase metade dos crimes (47,36%). Santa Catarina também contabilizou 51 feminicídios.
Medidas protetivas e botão do pânico
As medidas protetivas, previstas na Lei Maria da Penha, cresceram em Brusque: de 246 em 2023 para 300 em 2024, alta de quase 22%. Elas podem determinar desde o afastamento do agressor até a proibição de contato.
O pedido pode ser feito em delegacias, promotorias e defensorias. A polícia tem 48 horas para enviar ao juiz, que deve decidir no mesmo prazo. Não é necessário advogado.
Outro recurso em expansão é o botão do pânico, disponível no aplicativo PMSC Cidadão para mulheres com medida protetiva ativa.
Em 2024, Brusque registrou 15 acionamentos, contra nove no ano anterior. Ao ser acionado, o dispositivo envia a localização da vítima à central da PM, que encaminha a viatura imediatamente.
Rede de acolhimento em Brusque
O atendimento às vítimas ocorre em Unidades Básicas de Saúde, no Pronto Atendimento Santa Terezinha e no Serviço de Atenção Integral às Pessoas em Situação de Violência Sexual (Savs).
Segundo a diretoria de Especialidades, o acolhimento é sigiloso e inclui escuta ativa, atendimento médico, psicológico e social.
O Savs acompanha cerca de 90 vítimas e oferece atendimento emergencial até 72 horas após a violência, além de acompanhamento contínuo.
Em 2024, Brusque ganhou uma unidade do Núcleo de Atendimento às Vítimas de Crimes (Navit), que oferece suporte jurídico, psicológico e social, incluindo aluguel social para casos de violência doméstica. O atendimento funciona na sede do MP-SC, no Centro, de segunda a sexta, das 13h às 19h.
O Neavid também mantém canais de contato: e-mail [email protected], telefone (48) 3330-9409 e WhatsApp (48) 9133-2511.
Assista agora mesmo!
Você sabia? "Parabéns pra você" cantado em Brusque é único no mundo e surpreende quem é de fora:
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