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Profissionais de trânsito de Brusque avaliam impactos de novas regras para emissão da CNH

Detran-SC ainda adapta sistemas às novas mudanças

Profissionais de trânsito de Brusque temem o impacto no aprendizado de novos condutores após as mudanças nas regras para a emissão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que entraram em vigor neste ano.

O jornal O Município entrou em contato com diversas autoescolas de Brusque para uma manifestação. Entretanto, apenas uma quis se posicionar sobre o assunto.

Vale ressaltar que as mudanças ainda estão em fase de transição e que o Detran-SC solicitou ao Cetran 180 dias para fazer as adequações necessárias.

Em nota divulgada no início de dezembro, antes da aprovação das mudanças, o Detran-SC afirmou que “será necessário um período de adaptação institucional para atualização de sistemas, procedimentos e fluxos de atendimento”.

Everaldo Bertolini, sócio-proprietário da Autoescola Brasil, recebeu a mudança com preocupação. Na visão dele, trata-se de um movimento político, e a promessa de baratear o processo é falsa.

“A mudança está precarizando a educação para o trânsito ao retirar as aulas. Não se pensou em segurança. Se, com aulas, já se tem 40 mil mortes por ano no trânsito no Brasil, imagina sem nenhum conhecimento”, diz.

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Outra preocupação dele é com a formação de instrutores, que agora podem se qualificar por meio de um aplicativo do governo federal, com os seguintes critérios: ter no mínimo 21 anos, possuir habilitação há pelo menos dois anos, não ter cometido nenhuma infração gravíssima nos últimos 60 dias, ter concluído o ensino médio, possuir certificado de curso específico e não ter a CNH cassada.

“Há relatos de instrutores com certificado, mas que não são habilitados. Qualquer aventureiro pode ser um. Isso vai gerar muita insegurança, já que os alunos não sabem se o instrutor é realmente qualificado para o cargo”.

Por fim, ele afirma que buscam um novo modelo de ensino, com psicólogos especializados, para tratar questões emocionais dos alunos, já que, segundo ele, muitos reprovam por medo ou falta de segurança.

Preocupação com o aprendizado

Instrutores autônomos de Brusque também se manifestaram sobre o assunto. Teodoro Pereira dá aulas particulares há cerca de 15 anos e está preocupado com a falta de critérios para a aprovação de instrutores autônomos. Na visão dele, essa insegurança coloca a vida dos alunos em risco.

“Nós temos relatos de pessoas que nem são habilitadas e conseguiram fazer o curso, que inclusive dá para fazer em 5 ou 10 minutos. Elas passaram na prova e receberam o certificado de instrutor”, diz.

Com a retirada da obrigatoriedade das aulas teóricas, Teodoro afirma que aumentam as chances de haver condutores sem conhecimento sobre as leis de trânsito.

“Se uma instituição está credenciada para ministrar o curso e ela apenas emitiu o certificado dizendo que o aluno fez o curso, isso é válido, sendo que ele não precisa ter lido nada ou aprendido”.

Alunos poderão fazer aulas com o próprio carro | Foto: João Henrique Krieger/O Município

Para ele, o barateamento no processo de emissão da CNH é um movimento político que acaba excluindo pessoas de conseguirem o documento, uma vez que grande parte dos alunos não sabe dirigir e depende de aulas práticas e teóricas.

“Vão excluir as pessoas que têm mais dificuldade e as mais velhas, porque elas terão que pagar por aulas que vão ficar mais caras. É um processo de enganação, porque, ao invés de ficar mais barato, vai piorar”, diz.

Por fim, avalia que haverá alunos desesperados para conseguir a CNH que irão contratar instrutores desqualificados, o que deixará o trânsito cada vez mais inseguro.

Liberdade e custos para emissão da CNH

O instrutor Helio Fialho, formado em 2010, mantém a mesma linha de pensamento. Para ele, as novas regras impactam os profissionais de duas formas.

A primeira é a maior liberdade na prestação de serviços, já que poderão oferecer atendimento direto aos alunos. Porém, os custos para ensinar com segurança no próprio carro do aluno são altos.

A segunda é a diminuição da exigência para a formação de instrutores. "Em vez de realizar provas teóricas e práticas, basta responder a um questionário on-line para obter o certificado", diz.

Sobre as mudanças nas aulas práticas e teóricas, Helio afirma que elas não preparam os alunos para se tornarem condutores habilitados. Ele avalia que as aulas teóricas são fundamentais para que os alunos compreendam como funciona o trânsito.

“Pela experiência que tenho, apenas 10% da população conseguiria tirar a CNH com apenas duas horas de aula. Não houve redução dos custos da CNH, o que houve foi a diminuição da exigência em relação à quantidade de aulas”, diz.

A CNH digital | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Ele afirma que 90% da população precisa de mais de 20 aulas para ser aprovada, o que fará com que o aluno pague, de uma forma ou de outra, para ter aulas. Nesse cenário, o instrutor acredita que o aluno tenderá a optar pela própria autoescola, com receio de contratar alguém sem qualificação.

“No início, todos buscam o preço, até por conta do momento em que vivemos, mas, quando se dão conta de quão importante é estar bem preparado para o trânsito, percebem que fizeram a escolha certa e não consideram o valor caro”.

“Em quem você confiaria a sua vida: em um médico formado e experiente ou em alguém que se formou recentemente de forma EAD? A resposta de 100% das pessoas seria o profissional qualificado”, finaliza.

No fim do ano passado, o vereador Paulinho Sestrem (PL) discursou sobre o assunto na tribuna da Câmara, ao mostrar diversas imagens de acidentes em autoescolas. Para ela, as mudanças irão aumentar o número de casos.

“Se com veículos adaptados já aconteceram acidentes, imagina com o aluno fazendo com o próprio carro. Se com as aulas já aconteceram acidentes, pensa o que vai ter de morte Brasil afora, e nós vamos sentir isso aqui também”, diz.