Colônia Brusque, ano 1880: um reino de miséria?
Não encontrei prova documental. Mas, há informação de que, nos anos de 1879 e 1980, o padre italiano Arcângelo Guanarini teria exercido o sacerdócio na Colônia Brusque-Dom Pedro. De qualquer forma, é certo que em 1880, escreveu um artigo intitulado “Notícias de Brusque e Nova Trento”, no qual deixou registrado as suas impressões sobre a vida nessas colônias. Fez questão de esclarecer que procurou “mostrar, com toda a fidelidade, tanto o bem quanto o mal observados, durante três anos”.
Quanto à Colônia Brusque, começa dizendo que se um europeu aqui tivesse chegado cinco anos antes, iria ver um cenário de extrema pobreza pelas casas de tábuas e ripas cobertas com folhas de palmito, estradas e caminhos enlameados e quase intransitáveis, gente descalça, malvestida e de cor moreno-pálida. Ao se deparar com aquela paisagem urbana e rural, o visitante só poderia imaginar que estava diante do “reino da miséria”. Tudo por conta do clima e da alimentação, baseada no consumo de mandioca, registrou o padre.
A observação, no entanto, só poderia se referir aos primeiros anos da vida colonial, quando tudo ainda estava por ser feito: abertura das picadas e caminhos, construção dos ranchos e das casas de moradias e o desmatamento para as primeiras plantações e colheitas. Mesmo assim, no final de 1862, antes mesmo da Colônia ter completado dois anos de existência o diretor Schnéeburg já informava ao presidente da Província que o “clima da Colônia era muito saudável e as águas magníficas”.
No seu relato marcado pelo otimismo, escreveu que, além das poucas construções existentes na “sede do estabelecimento”, o núcleo colonial contava com 54 casas de moradia em boas condições, “sendo uma de cal e pedra” e as demais de “madeira falquejada”. Havia ainda cinco engenhos para a produção de farinha de mandioca e milho, “uma casa comercial e três tabernas”, além da produção de fumo e charutos para exportação.
Quanto à cor das pessoas, é evidente que os colonos de origem germânica não mudaram até hoje a cor da pele, só por terem se alimentado com esse gostoso tubérculo nativo. Salvo nos casos de miscigenação, é claro. Assim, afirmação do cronista itálico só pode ter sido fruto do preconceito europeu contra o clima tropical e o nosso bom aipim. O padre Guanarino, realmente, se perdeu no tempo. O quadro de vida rudimentar e pobreza quase primitiva por ele pintado só existiu nos primeiros anos de vida colonial.
Em de 1866, escreveu o diretor que, apesar das dificuldades enfrentadas, a Colônia Brusque já apresentava um “progresso positivo”, demonstrado pelo crescente número de colonos morando em 338 casas construídas na sede e, principalmente, ao longo dos caminhos coloniais. E fez questão de registrar que “184 casas eram boas, algumas já cobertas com telhas”. Havia também, mais de trinta engenhos de farinha, fubá, de serra para madeira e cana de açúcar. A produção de fumo em folha e de charutos de “boa qualidade” tinha aumentado bastante e atingido valor considerável.
Como se vê, parece que o padre Arcângelo Ganarini esqueceu-se da sua promessa de escrever com a devida fidelidade sobre a realidade colonial brusquense do ano de 1880.