Ir para o conteúdo

Velhice, cafeteria e o cão Alain Delon

Para muitos idosos destes tempos modernos, o cão é a alternativa ao vazio da vida solitária e sofrida da velhice. Aqueles que ainda podem andar com as próprias pernas, escapam da solidão por algum tempo para uma caminhada com o seu companheiro fiel ou para ir à farmácia, ao mercado ou uma cafeteria.

Sozinha, sentada à mesa da cafeteria, Albertina toma o seu cappuccino, aquele espresso com espuma de leite quente e mais um topete cremoso de chantilly, dois dedos acima da borda da xícara. Viúva, já quase nos seus 80 anos, ela ainda consegue fazer a sua caminhada diária para tomar um café. Como agora cachorro também vai ao shopping, lá está seu querido buldogue francês, fiel companheiro de todas as horas.

Apesar daquela cara enrugada, feia e triste, um cachorro que não late e parece não se importar com nada, Albertina deu-lhe o nome de Alain Delon, em homenagem ao galã dos anos 60, pelo qual fora apaixonada desde solteira. Por causa da sua paixão juvenil, quase perdeu o seu namorado e futuro marido, que enciumado, um dia quebrou um porta-retrato com a foto do ator francês, comprado por Albertina para colocar em cima do criado-mudo.

Mas, tudo passa. Depois que seu santo marido faleceu, sentiu-se livre para ter o seu Alain Delon — da espécie canídea, é claro — sempre em sua companhia e que até dorme na cama no lugar do finado.

Mas, voltemos à viúva tomando o seu cappuccino que, como se sabe, no começo deve ser sorvido às colheradas. A cada golpe no topete branco de creme, Albertina pergunta se o Alain Delon quer provar o chantilly. Nem espera resposta porque, pelo latido, pelo olhar e o abanar do toco do rabo, entende muito bem a linguagem canina. E há tempo, sabe que o seu fiel companheiro não tolera cafeína, nem disfarçada no creme lácteo.

A pergunta, no entanto, é só para iniciar uma conversa e estar certa de que não está a falar sozinha. Ela sente que precisa conversar, dizer alguma coisa para o seu cão como faz em casa, onde vive sozinha, pois os filhos e netos quase nunca tem tempo para vê-la.

Então, diz que o cappuccino está bom. Mas poderia ser melhor se a barista tivesse colocado um pouco mais de creme, que é a cereja do bolo desse tipo de café inventado pelos italianos para a alegria de jovens e também de velhos que ainda podem caminhar até uma cafeteria.

Estirado sobre o piso da cafeteria, Alain Delon abre e revira os olhos, mexe as orelhas e abana o rabo por alguns instantes. Para Albertina, o cão sempre a escuta com atenção as suas conversas e entende as angústias que perturbam a sua vida de idosa solitária.