Obra subterrânea, água e solo instável: os desafios da macrodrenagem da avenida Primeiro de Maio, em Brusque
Trabalho envolve escavações profundas, túneis e bombeamento constante de água
A obra de macrodrenagem da avenida Primeiro de Maio, em Brusque, considerada uma das mais complexas já executadas no município, enfrenta desafios técnicos que vão muito além do que é visível para quem passa pela via.
Iniciada em junho de 2023, a intervenção tinha prazo inicial de conclusão em 6 de dezembro de 2024, mas, segundo a prefeitura, deve ser entregue apenas em junho deste ano. O objetivo é resolver de forma definitiva os recorrentes alagamentos na região.
Atualmente, os trabalhos ocorrem em quatro frentes simultâneas, com equipes atuando tanto na superfície quanto no subsolo. De acordo com o vice-prefeito Deco Batisti, grande parte do esforço acontece longe dos olhos da população.
“Muita gente não vê o trabalho que acontece, mas muito desse serviço é subterrâneo”, afirma. Segundo ele, os acessos verticais permitem que os operários cheguem aos pontos onde a escavação avança por baixo da avenida.
A complexidade da obra chamou a atenção até mesmo da empresa responsável pela execução. Conforme relatou o vice-prefeito, o proprietário da Freedom, construtora com mais de 30 anos de atuação, classificou o projeto como o mais difícil de sua carreira.
Entre os principais fatores que impactam o cronograma estão as condições do solo e a grande presença de água no subsolo.
“Já foram identificados oito veios de água. Como é um vale, essa água pressiona o ponto mais baixo e brota em vários locais”, explica.
Técnica utilizada
Para viabilizar a intervenção sem interditar completamente a avenida Primeiro de Maio, a solução adotada foi a construção de túneis com a técnica conhecida como tunnel liner. Segundo a equipe técnica, a alternativa evita a abertura total da via e reduz os riscos às edificações próximas.
“Se fosse feita uma galeria convencional, a avenida teria que ser totalmente interditada, e as construções ao redor seriam afetadas, porque a profundidade é grande e o solo não é estável”, detalha o Felipe Patel, fiscal da obra.
O fiscal explica que o método exige precisão e reforços constantes. Durante a escavação, os anéis metálicos do túnel não se encaixam perfeitamente no solo, o que gera espaços vazios.
“Depois que o anel é montado, esse espaço é preenchido com uma mistura de argila e cimento, garantindo estabilidade e evitando que a via ceda”, afirma.
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Toque aqui e participe!Em trechos mais críticos, também são instalados vergalhões para reforçar a estrutura e permitir o avanço seguro dos trabalhos.
Em um dos túneis em execução, com cerca de 50 metros de extensão, já foram utilizados mais de 110 anéis. No total, dois túneis e duas frentes de galeria estão em operação, com equipes de seis a sete trabalhadores em cada ponto.
Quando a escavação encontra rocha ou raízes solidificadas, é necessário o uso de rompedor para dar continuidade ao serviço.
Água que atrapalha
A presença constante de água é outro obstáculo enfrentado diariamente e que compromete não apenas as escavações do túnel, mas também as duas outras galerias abertas em diferentes pontos da obra.
Patel relata que, mesmo após um dia inteiro de trabalho, a galeria pode amanhecer parcialmente tomada. “Por isso, usamos duas bombas, uma de 100 mil litros por hora e outra de 20 mil litros por hora, para conseguir esgotar e seguir a escavação”, explica.
Além disso, a obra precisa avançar em conjunto com a adutora do Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) de Brusque, que passa paralelamente à galeria.
Em solos mais frágeis, há risco de desmoronamento e exposição da tubulação, o que exige planejamento integrado para evitar o desabastecimento de água.
“É um trabalho conjunto, sempre pensando na segurança e em não deixar a população sem água”, destaca o fiscal.
Na esquina com a rua Gustavo Halfpap, outra frente avança com o uso de gaiolas de escoramento, estruturas metálicas que garantem a segurança dos operários em meio ao solo instável.
“O solo desmorona com facilidade. A gaiola é colocada no buraco, e as galerias vão sendo encaixadas por dentro, evitando acidentes”, explica Patel.
Expectativa de entrega
Apesar das dificuldades, a expectativa da prefeitura é concluir a obra até o meio de 2026. “Se o tempo colaborar e tudo correr como planejado, a nossa previsão é entregar essa obra no final de junho”, afirma o vice-prefeito.
Até lá, a macrodrenagem da avenida Primeiro de Maio segue avançando de forma silenciosa, debaixo da terra, com a promessa de reduzir de forma significativa os alagamentos em uma das regiões mais afetadas de Brusque. Nesta segunda-feira, 2, o trânsito foi liberado na via em meia pista.