A pandemia da Covid-19 mostrou o quanto é importante ter um sistema de saúde preparado e acessível a todos. Desde o início, o número de leitos, principalmente de UTI, foi uma grande preocupação nos municípios.

Ao longo dos meses, os hospitais ampliaram suas estruturas e se equiparam para poder enfrentar um inimigo invisível e muito potente, mas que infelizmente está mais forte do que nunca.

É esta estrutura criada no último ano, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS), que o ex-secretário de Saúde de Brusque, Humberto Fornari, acredita que ficará como marca da pandemia na área da saúde.

Fornari esteve à frente da secretaria desde o início da pandemia até dezembro. Foram quase dez meses de trabalho quase que exclusivo de combate à Covid-19.

Como secretário de Saúde, Fornari em conjunto com o Hospital Azambuja, conseguiu o credenciamento de 22 leitos de UTI exclusivos para a Covid-19 no município. Em julho, o hospital abriu os primeiros 10 leitos e em setembro os outros 12. Os equipamentos foram repassados pelo governo do estado e também vieram de doação de empresários. O hospital forneceu a estrutura.

Expectativa é que novos leitos de UTI fiquem no Hospital Azambuja pós-pandemia | Foto: Prefeitura de Brusque/Divulgação

“A pandemia escancarou a falta de leitos de UTI no país. O hospital começou a pandemia com apenas nove leitos SUS para atender todos os tipos de doença. Foi uma luta grande até chegarmos aos 22 que hoje estão disponíveis exclusivamente para Covid-19”.

Para o ex-secretário, pós-pandemia, o desafio será manter pelo menos parte desses novos leitos no hospital credenciados pelo SUS, ampliando a capacidade de atendimento da unidade. “Se não os 22, que pelo menos metade permaneça pelo SUS. É algo que falta e que é fundamental. Assim, evitaremos o transporte de muitos pacientes para outras cidades. Estrutura para comportar esses leitos o hospital já mostrou que tem”.

Valorização do SUS

Para o ex-secretário, o pós-pandemia também deve deixar ainda mais explícito para os brasileiros a importância do SUS, que tem, sim, suas deficiências, mas deve sair fortalecido da crise.

“Se tem essa ideia de que o SUS não funcionava, mas quando ele voltou a cara para a pandemia, nos meses seguintes notamos uma avalanche de pacientes crônicos descompensados, que não receberam o tratamento de apoio nas UBS. Antes, eram essas equipes que faziam o acompanhamento desses doentes, que não deixavam agravar. A importância da atenção básica ficou muito evidente no ano passado”, destaca.

Fornari destaca que o SUS é um sistema fundamental e que a população deve cobrar dos políticos mais atenção a essa causa. “É na atenção básica que tudo acontece. Precisamos ter um sistema efetivo na atenção primária, que vai resultar num fluxo melhor para os hospitais. Acredito que pós-Covid as pessoas terão um novo olhar sobre o SUS”.

“Não tem como retroceder”

O ex-secretário destaca os investimentos do governo federal na saúde dos municípios para o enfrentamento da pandemia. Em Brusque, ele ressalta que esses recursos possibilitaram a implantação do Centro de Triagem, a ampliação de serviços do Hospital Dom Joaquim e também a compra de testes.

“A estratégia do Centro de Triagem foi dar um respiro para o Hospital Azambuja. E o trabalho lá deu tão certo, que pós-pandemia pode-se pensar em manter a estrutura, não focado apenas em Covid, que teremos que conviver, mas evoluir para algo ambulatorial”, diz.

“Poderemos ver tudo o que aconteceu, o que deu errado, o que deu certo e buscar evoluir. Penso que o SUS será muito mais assertivo daqui pra frente. Não tem como retroceder. Acredito que o financiamento do serviço público de saúde vai alavancar”, completa.

Tecnologia

O ex-secretário também ressalta o ganho de tecnologia no sistema de saúde durante a pandemia, com a implantação da telemedicina, por exemplo.

Para ele, as consultas on-line devem ganhar cada vez mais espaço, principalmente com pacientes crônicos nas unidades de saúde. “Vejo que depois dessa pandemia, principalmente as consultas de retorno devem evoluir para a telemedicina, deixando as unidades de saúde para os atendimentos de consultas não eletivas”.

“Não vamos voltar a ser o que éramos”

Rapidamente, o Hospital Azambuja precisou se adaptar para enfrentar a pandemia da Covid-19. Em quase 120 anos em Brusque, nunca a unidade hospitalar foi tão exigida. O gestor hospitalar, Gilberto Bastiani, explica que logo no começo, o hospital teve que se reorganizar e alterar os fluxos de atendimento e internação dos pacientes.

“Tivemos que criar alas de isolamento para os pacientes Covid, com atendimento diferenciado devido a esse isolamento. No pronto-socorro, também fizemos uma ala exclusiva para o atendimento desse paciente, desde a hora que chega, até a internação, se necessário”.

Com o passar dos meses, foram criadas duas UTIs Covid, com 22 leitos disponíveis e a ampliação da área de isolamento do hospital. “Acabamos isolando duas áreas do hospital para poder fazer o atendimento covid pelo SUS e privado”.

Bastiani destaca que a pandemia foi acrescentada no planejamento do hospital. “Hoje, 30 a 40% do hospital é direcionado para a pandemia. Tivemos que readequar as estruturas e, felizmente, conseguimos muitos recursos para equipar melhor o hospital. Acredito que o Azambuja é um dos hospitais mais bem preparados para receber os pacientes no estado”.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no dia a dia, com pacientes cada vez mais graves e toda a equipe esgotada física e mentalmente, o diretor técnico do hospital, Eugênio José Paiva Maciel, avalia que o hospital cresceu muito neste último ano.

“Conseguimos melhorar muito nossa estrutura. Nós crescemos nas guerras e estamos crescendo pela dor agora também. Esse vírus nos ensinou muita coisa: a importância de ter saúde, de estarmos preparados. A única coisa que sinto muito dessa pandemia é que morreram muitas pessoas, e muitas pessoas boas. Salvamos muitos pacientes, mas o que marca são os óbitos”.

O médico destaca a importância de os novos leitos ficarem no hospital no futuro. “Era uma necessidade do hospital. Os 10 leitos que tínhamos sempre estavam cheios. Então, se ficarmos com mais 10 leitos, vai possibilitar que os pacientes fiquem na cidade. Não vamos voltar a ser como éramos, o hospital não será como antes. Apesar das coisas ruins que estamos vivendo, o vírus trouxe crescimento, aprendizagem, novas estratégias. Estaremos preparados para as próximas pandemias”, afirma o médico.


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