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Percepção de aumento de casos de adultização em Brusque preocupa Conselho Tutelar

Vídeo do influenciador Felca ampliou debate sobre adultização no Brasil e repercutiu na política, Judiciário e imprensa

A palavra adultização ganhou força no Brasil no início de agosto após denúncias apresentadas pelo influenciador Felca em um vídeo. O termo remete à exposição de crianças e adolescentes a situações incompatíveis com a idade. Em Brusque, o assunto é tratado com preocupação pelo Conselho Tutelar.

A entidade, responsável por zelar pelos direitos de crianças e adolescentes, afirma que há a percepção de aumento de casos que envolvem adultização no município. No entanto, não existem dados específicos para confirmar a sensação de aumento de casos.

“Ainda que não tenhamos estatísticas específicas, a experiência cotidiana do Conselho Tutelar aponta para um fenômeno crescente que demanda atenção da sociedade, das famílias e, sobretudo, de políticas públicas integradas de proteção”, diz a conselheira Analice Comandulli Floriani.

A adultização envolve, em linhas gerais, situações que colocam um menor de idade em papéis, responsabilidades e comportamentos da vida adulta. A definição vai desde o trabalho infantil à erotização precoce. Exploração sexual, pressão estética e exposição excessiva nas redes sociais também são consideradas adultização.

O Conselho Tutelar de Brusque avalia que os adolescentes entre 12 e 17 anos, principalmente aqueles expostos com frequência às redes sociais, são o perfil mais comum entre as vítimas de adultização. Casos também são observados em adolescentes com pouco suporte familiar.

O trabalho infantil é um exemplo comum que envolve a adultização em Brusque. Irmãos mais velhos que cuidam de irmãos mais novos e filhos responsáveis integralmente por tarefas domésticas a ponto de prejudicar os estudos são casos cotidianos atendidos pelo Conselho Tutelar.

Responsabilidade das plataformas


Para o Conselho Tutelar de Brusque, a maior parcela da responsabilidade por casos de adultização deve recair sobre as plataformas digitais. A falta de regulamentação no Brasil permite com que crianças e adolescentes sejam expostas a conteúdos incompatíveis com a idade. A entidade define a internet como um “território sem dono”.

“O uso indiscriminado das telas, sem limites claros ou regras definidas, aliado à dificuldade de controle por parte dos pais e responsáveis, tem exposto crianças e adolescentes a riscos significativos”, considera Analice.

O vídeo com as denúncias de Felca foi publicado no YouTube e soma mais de 45 milhões de visualizações. O influenciador relaciona, sobretudo, a adultização com a erotização de crianças.

Em grande parte do vídeo, ele denuncia supostos crimes cometidos pelo influenciador Hytalo Santos, preso dias após a divulgação do vídeo, em meio a uma investigação por crimes contra menores.

Felca revela ainda a existência de casos de pedofilia nas redes sociais. O acesso dos criminosos a conteúdos que erotizam menores de idade é facilitado graças ao algoritmo das plataformas, conforme mostra o vídeo-denúncia.

Vídeo do influenciador Felca denunciou casos relacionados à adultização. Foto: Felca/Reprodução

O trabalho investigativo de Felca ganhou destaque no Jornal Nacional e no Fantástico, da TV Globo, e movimentou a política e o Judiciário, além da imprensa. O influenciador também foi convidado para tratar do assunto no programa Altas Horas, com Serginho Groisman.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou a criação de uma comissão para analisar propostas relacionadas ao combate à adultização. Diversos projetos de lei que visam a proteção de menores foram protocolados no Congresso após o vídeo.

O delegado regional de Brusque, Fernando de Faveri, analisa positivamente a ampla repercussão de conteúdos que auxiliam no combate a crimes. Ele defende que o sistema de Justiça e os órgãos de proteção não podem estar alheios às mobilizações sociais.

“Estes conteúdos podem desempenhar papel relevante ao estimular denúncias, informar a população sobre direitos e conscientizar sobre deveres de proteção. No entanto, é importante ressaltar que o combate efetivo a estes crimes exige não apenas mobilização social, mas também atuação coordenada do sistema de Justiça, dos órgãos de proteção e da sociedade civil”, analisa.

Crimes contra crianças em Brusque


Desde 2021, Brusque contabiliza aumento na quantidade de registros de crimes contra crianças. A adultização, por si só, não é uma tipificação de crime, pois possui diversas vertentes. À reportagem de O Município, a 17ª Delegacia Regional de Polícia divulgou os números de registros de casos de importunação sexual, estupro de vulnerável e ameaça contra crianças de até 11 anos na cidade.

Brusque registrou, em 2021, 15 casos envolvendo estes crimes, um aumento percentual de 87,5% em relação ao ano anterior. Em 2022, subiu para 20 registros. Os casos registrados pela polícia aumentaram mais de 20% no ano seguinte, 2023, com 24 notificações. Por fim, em 2024, foram 30 registros. Até 19 de agosto de 2025, a delegacia possui 11 casos notificados no ano.

Registros de crimes sexuais contra crianças em Brusque
2021: 15 registros
2022: 20 registros
2023: 24 registros
2024: 30 registros
2025: 11 registros (até 19 de agosto)

Fernando de Faveri diz que o aumento de registros de crimes sexuais contra menores em Brusque não representa, necessariamente, um crescimento no número de casos. Ele considera que há mais estímulo a denúncias, o que consequentemente gera mais notificações.

“O aumento da confiança na Polícia Civil, por exemplo, traduz em mais registros de casos deste tipo, mas não necessariamente em mais crimes, já que, antes, casos que não seriam notificados passaram a ser notificados”, analisa o delegado regional.

A adultização é tratada pelo Conselho Tutelar de Brusque como violação de direito. Sendo assim, a entidade segue o mesmo protocolo de atuação estabelecido para outros tipos de violência específicas.

Os serviços públicos voltados à prevenção de violações de direitos e fortalecimento familiar em Brusque são oferecidos, principalmente, nas unidades do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) no Limeira e no Azambuja.

Assista ao vídeo de Felca

Colaborou: Otávio Timm


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