Diariamente me deparo com a hipocrisia masculina relacionada à paternidade, não apenas porque sou mulher, mãe solo, independente e autônoma, mas também porque penso.

Penso que um book fotográfico custa muito mais que a pensão miserável que o pai paga à filha, mas a estampa está lá: propaganda de margarina.

Penso que mesmo passando quinzena e as vezes mês longe do filho, a cada dia ou outro uma selfie das muitas armazenadas em um único fim semana são liberadas da sua galeria para que todos pensem que é um pai zeloso e presente, o que está a léguas de ser.

Penso que é pura maldade, quando a filha doente precisa esperar na fila do SUS com problemas sérios, porque o pai prefere ostentação a pagar um plano de saúde.

Penso que pai que deixa filho esperando para um encontro ou simplesmente não vai, não avisa, tampouco sabe o que são sonhos, traumas e amor verdadeiro.

Penso que as pessoas se surpreendem, quando descobrem que o homem que posa para a selfie sorridente e talentoso é na verdade o mais inescrupuloso dos seres.

Penso que em DNA de mau caráter não existe arrependimento e sorriso falso qualquer um pode dar, mas a lei do retorno, meus caros pais de selfie, essa não poupa ninguém. Para a cara de pau existem um par de filtros e edições. Caráter não se edita, se tem ou não.

 


Graci Gavioli
– artista