Os seminários têm como objetivo principal formar sacerdotes, mas o seu papel social vai além disso. A casa de formação busca, acima de tudo, educar bons cristãos para a vida em sociedade. Se o aluno irá se ordenar sacerdote ou não é uma consequência desse trabalho contínuo realizado dentro dessas instituições, como em Brusque.

O Seminário de Azambuja teve, naturalmente, milhares de estudantes ao longo desses 90 anos na cidade. Passou por muitas fases, pelos momentos áureos, quando as famílias encaminhavam os filhos para serem padres e as salas eram cheias. Muitos desses alunos desistiram no decorrer do caminho, mas a marca do seminário permanece até hoje.

O reitor do Seminário de Azambuja, padre Francisco de Assis Wloch, ressalta que a formação dos estudantes busca torná-los boas pessoas para a sociedade. O padre Eder Claudio Celva, formador do Seminário Menor, explica que a educação sacerdotal abrange cinco dimensões: intelectual, humano-afetiva, espiritual, comunitária e pastoral-comunitária.

A igreja tem como meta o aprofundamento da vocação cristã e o discernimento da vocação presbiteral, levando em conta o ser humano. Para alcançar o sacerdócio é necessário um longo caminho de formação preparatória, que segue de forma permanente, até mesmo depois da ordenação.

“Busca-se primeiro formar o ser humano, em todas as suas dimensões, para que seja consciente da realidade social e eclesial atual, transformando-o para o bem como o fez Jesus Cristo”, afirma.

Márcio Aurélio Crispim – 1º da dir. para esq. na fileira de baixo – o presidente da Associação dos ex-alunos do Semninário de Azambuja, posa para foto no seminário / Arquivo pessoal

O padre Eder, que é pesquisador e escritor, diz que historicamente os ex-seminaristas fizeram a diferença na sociedade brusquense. “As casas de formação tiveram papel importante na sociedade, porque os ex-seminaristas foram, de fato, lá no mundo, esse fermento na massa. Gente que colocou em prática valores que aprendeu, e o nosso seminário contribuiu muito para isso”.

Atualmente bispo da Diocese de Tubarão, Dom João Francisco Salm formou-se em Azambuja, onde foi também reitor. Ele lembra que, na sua época, um jovem desistiu de ser padre, mas, devido à alta qualidade dos estudos lá dentro, não teve prejuízo.

“Lembro que um rapaz desistiu do seminário e não tinha concluído o segundo grau, à época o científico. Ele conseguiu fazer o vestibular na universidade federal e passou em primeiro.

Depois descobriram que ele não tinha feito o último ano. Ele entrou com um processo para cursar a faculdade de Medicina, e ele conseguiu. A faculdade reconheceu a qualidade do ensino do seminário”, relembra o bispo de Tubarão, ex-aluno e ex-reitor do seminário.

Gratidão pelos ensinamentos
O Seminário de Azambuja formou milhares de jovens da Arquidiocese de Florianópolis e de outros lugares. Gente como Fabrício Rubik, hoje consultor de empresas em Brusque. Ele passou sete anos na instituição.

Rubik chegou ao seminário em 1989, oriundo do interior, onde trabalhava na roça. Não havia terminado os estudos, por isso fez o Seminário Menor – o Ensino Médio, que durava quatro anos à época.

Fabrício Rubik dando depoimento na ordenação sacerdotal do padre Reinaldo Schmitz, em 1992 / Arquivo pessoal

Depois, ficou um ano como assistente de formação, para então ingressar no Seminário Maior, no curso de Filosofia. Rubik deixou o seminário no fim de 1995, sete anos depois de ter chegado à cidade.

Casado e com duas filhas, ele afirma ser grato até hoje pela formação que teve. “Para mim, foram sete anos muito importantes da minha vida. Tudo que aprendi em termos de relacionamento, como conviver, o ensino, a educação intelectual e pessoal foi no seminário.

Tive uma formação humana. Tenho um grande carinho e apreço por essa casa”, diz o ex-seminarista.

Amizades que perduram por décadas
Sadi de Souza, professor no Senai do município e projetista, estudou no Seminário de Azambuja entre 1988 e 1990. A história dele com a igreja começou em 1986, quando, em uma missa, viu um grupo de seminaristas animando a celebração.

Sadi de Souza estudou em Azambuja por três anos, no fim da década de 1980 / Arquivo pessoal

A partir dali, Souza começou a se envolver com os assuntos religiosos, até que foi para o Seminário Menor. Ele lembra que teve grandes professores e ensinamentos durante os três anos. “Fui um tempo de muito aprendizado e amadurecimento, faria tudo de novo”, afirma.

Na época, Dom João Salm era reitor do Seminário de Azambuja, e ele teve aulas com Alexandre Merico, que fora prefeito de Brusque antes de ser professor, entre 1977 e 1983. Ele também destaca que o engenheiro Luiz Carlos Maçaneiro lhe deu aula. Os dois mantêm amizade até hoje. Casado e com família formada, ele relembra com carinho dos tempos de seminarista.

Exemplos de vocação permanente
O fato de terem deixado o seminário não significa que o desejo de seguir na fé deixou os jovens. Há muitos casos de ex-seminaristas que continuam envolvidos na igreja, mas optaram pelo matrimônio ao invés do sacerdócio.

Essas pessoas são importantes na sociedade moderna e na construção de um mundo melhor. Vários desses ex-seminaristas conseguem, mesmo tendo abandonado o sacerdócio, levar os ensinamentos à sociedade.

Márcio Aurélio Crispim, presidente da Associação dos Ex-Alunos do Seminário de Azambuja (Aesa), é um exemplo de vocação permanente. Morador de Ilhota atualmente, ele está fazendo a preparação diaconal. Deve terminá-la em 2019, na Diocese de Blumenau.

Tornar-se diácono será especial para Crispim, que frequentou o seminário entre 1988 e 1990. Ele resolveu estudar para ser padre após uma campanha vocacional feita na sua paróquia pelo padre Hélio da Cunha.

Crispim lembra, em tom de brincadeira e nostalgia, que sua mãe não acreditou que ele duraria três meses no seminário, quando ele contou a novidade. Durou três anos. “Uma formação excelente, com professores que fizeram toda a diferença, pelo mérito deles”, diz.

O ex-seminarista decidiu deixar o seminário porque queria constituir a sua família, e assim o fez. Formou-se em Informática na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e depois em Administração. No entanto, mais de 20 anos depois, busca ordenar-se diácono para continuar ligado à igreja.


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