Palco de muitos bailes com gaita, cuca e café, a casa da família de Valentino Schlindwein, 71 anos, é mais um exemplar enxaimel da rua Guabiruba Sul.

Diferente das outras três que ainda restam na rua, a casa está escondida em meio ao verde das árvores plantadas por ele. Apenas os mais atentos conseguem observar de imediato as paredes de tijolinho da movimentada rua principal do bairro.

Estima-se que a casa foi construída entre 1946 e 1947 pelo pai de Valentino, Alfredo Schlindwein. Na companhia de um tio e de um primo que eram especialistas na técnica enxaimel, Alfredo fez a casa para morar com a família.

Casa está escondida na rua Guabiruba Sul | Foto: Bárbara Sales

Valentino não sabe se a irmã mais velha, Cecília, nasceu ali ou na casa anterior da família. Já ele, tem quase certeza que veio ao mundo na casa construída pelo pai. “Todas as minhas lembranças são aqui”, diz.

Bastante simples, a casa tem um grande terreno onde convivem em harmonia cachorros e galinhas. Valentino lembra que, na época de seus pais, a casa tinha apenas um quarto e uma sala.

Logo depois, ela ganhou um anexo de madeira, para onde foi transferida a cozinha. “Antigamente as casas só tinham um quarto, uma sala e o sótão. Nada mais. Até uns seis, sete anos, a gente dormia com os pais. Depois fomos crescendo e subindo para o sótão. De um lado era a parte dos meninos e do outro das meninas”, conta.

Valentino viveu na casa praticamente toda a vida. “Morei só uns quatro, cinco anos fora, o resto sempre aqui”.

Após a morte dos pais, ele ficou responsável pelo local. Morou junto com a esposa, Teresa Maria, e os quatro filhos, por muitos anos, da forma que foi deixada por seus pais. Em 1994, decidiu fazer uma estrutura maior para a cozinha, banheiro e sala. No enxaimel ficaram apenas os quartos. Hoje são quatro.

O anexo é de tijolo à vista também para seguir o padrão da construção mais antiga. As divisórias dos quartos foram colocadas com o tempo, mas a maioria das paredes são originais. O assoalho amadeirado também nunca foi trocado, assim como as telhas. “A casa teve várias reformas, mas só para trocar algumas madeiras que já estavam podres, a maior parte está como sempre foi”.

Casa já foi bastante castigada pela ação do tempo

A escada para o sótão também permanece. Hoje, entretanto, sem alguns degraus, o que a torna difícil de ser acessada. “Tinha mais uns três degraus aqui, mas não sei quando e nem porque tiraram”.

Valentino ainda tem fresco na memória como era a casa no tempo de seus pais e lembra com saudade dos famosos bailes de aniversário que aconteciam ali.

“Arrastava tudo para o canto, não existia sofá, poltrona, nada. Era só uma mesa pequena, um armário e ficava aquele salão grande, mais da metade da casa. Pegava a gaita e os vizinhos vinham. Pra comer era cuca, café e licor de maracujá, figo. Não é igual hoje que fazem costelada, cerveja, chope”, recorda.

Seu Valentino fala com orgulho da casa construída por seus pais | Foto: Bárbara Sales

Nas suas lembranças também figura o aipim que a família plantava e comia diariamente. “Era sagrado. Todo dia tinha aipim. Eram 10 horas da manhã e a panela já estava no fogo cozinhando”, lembra.

Apesar de bastante danificada pela ação implacável do tempo e pelos cupins – que não dão trégua e, por onde passam, deixam suas marcas – Valentino nunca pensou em destruir a casa enxaimel de seus pais. Para ele, não há lugar melhor para viver. “Já conheci um monte por aí, mas não encontrei lugar melhor do que aqui”, afirma.



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